sexta-feira, 31 de outubro de 2008

HALLOWEEN - de Rose di Primo a Clarice Lispector.

Ontem fui na Otorrino. Puta dor no ouvido, na orelha, maxilar e o cacete. O dentista, antes, falava que a dor era da minha mordedura, mordida de pitbull, bruxismo, mas não, a otorrino descobriu, é uma bolha de sangue no tímpano. Aposto que de tanto ouvir notícia.

Bom, enquanto esperava minha vez de ser atendido pela doutora, peguei uma revista e nela, a matéria que me leva a escrever esse post:
POR ONDE ANDA ROSE DI PRIMO?

Lembra dessa pelada? Por onde mesmo andaria a carioca mais glostlig do Brasil dos anos 70? Será que ainda andando pelada por aí? Será que ainda com aquele olhar... sapequinha?

Aí lendo, fiquei sabendo de coisas absurdas. Coisas do Rio de Janeiro. Coisas do Brasil.

1. Descoberta nas areias de Ipanema, Rose começou a carreira posando pra capa da revista manchete. Essa aqui:




2. No mesmo ano já era a modelo mais cara do Brasil, posto que manteve pela década inteira. Só como referência, seu cachê era 3 x maior que o da Sandra Bréa, na época, estrela global.
3. Rose ficava na praia fumando maconha o dia inteiro. Ali era o seu escritório. Quando queriam contratá-la, iam lá, e quase sempre faziam o ensaio lá mesmo.
4. Quando tinha de ir a um estúdio, ela mesma se maquiava. No carro. É que os maquiadores demoravam muito para fazer o que ela fazia em 5 mins, e se o sol baixasse... não teria mais praia nem foto.

5. Perdeu a virgindade aos 15 com um primo, Moryel Moriscotte de Mattos. Soa familiar?
6. O Sgto. Moriscotte ficou famoso no mundo inteiro como o policial carioca justiceiro, carniceiro e corrupto que matava bandidos, traficantes e estupradores com extrema crueldade: esvaziava pentes de bala em segundos, jogava ácido na cara, furava o corpo com brasa, envenenava, degolava e depois pendurava o resto com um bilhetinho sarcástico - e assinado.
Chefe e fundador do Esquadrão da Morte, inspirou o filme "eu matei Lúcio Flavio" - versão setentista do atual e badalado tropa de elite.

7. Mas voltando à Rose. No auge da carreira, diz ela que uma noite, saindo da balada e sem a chave de casa, para não acordar a mãe, pediu a um amigo para dormir na casa dele. Foi acordada pela polícia. Um dos rapazes que por ali também esteve naquela noite tomou pico e se atirou da janela do banheiro. Ela, que só dormiu e nem sabia que ali havia rolado uma festa, claro, até hoje não lembra de nada.

8. Depois desse evento, entrou em deprê. Quando ligavam pra Rose, ela indicava para o trabalho uma outra morena que era a sua cara. Luíza Brunet.

9. Os trampos minguaram. Em sua nona revista pelada, não tinha mais grana nem pra pegar um ônibus.

10. Virou evangélica. No culto conheceu um espanhol ex-drogado. Na ocasião, apenas milionário. 20 anos mais novo que ela. Foram pra Espanha e estão lá até hoje. Fim.
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Rose di Primo. Ou... Rose deu P.Primo. Nossa bruxinha do dia.
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E aproveitando a data, feliz halloween pra você que também não pára (e até gosta) de ler e assistir e ouvir notícias sanguinolentas. Uma ótima bolha no tímpano pra você e tudebom. Tchau.
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Tchau nada. Aproveitando a história da Rose, resolvi incluir nesse post um texto da Clarice Lispector, essa sim maravilhosa, linda (mas com um quê de halloween...) sobre a morte do Mineirinho, bandido que após roubar 800 cruzeiros de uma senhorinha, acabou morto com 13 tiros pelo Moriscotte. Quer dizer, morreu no primeiro, que foi na cabeça. Os outros 12 foram só "um recado" pros outros mineirinhos.
Só para constar, a opinião pública adorava o Moryscotte, tratavam-no como herói. Portanto, o texto da Clarice foi uma afronta aos padrões e à opinião geral daquela época. Mas isso de usar sua inteligência soberba para ir contra a opinião pública, a Clarice fazia muito bem. Por isso sua obra continua atual e irretocável. Diferente da Rose.
O conto foi editado. É um crime fazer isso com a Clarice, mas acharam muito comprido para um blog.

"É, suponho que é em mim (...) que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora. (...)E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que os seus crimes. (...) há alguma coisa que, se me fez ouvir o primeiro tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina - porquê eu sou o outro. (...) Enquanto isso durmo e falsamente me salvo (...) até que treze tiros nos acordem (...). Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. (...) Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo terceiro tiro o que eu dormia? (...) Mineirinho viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma. (...). Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha honorabilidade. Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. (...) que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular (...). Na hora de matar um criminoso - nesse instante está sendo morto um inocente. (...) ".


terça-feira, 28 de outubro de 2008

DEUSECOME-SE

Em um mês, o barril do pretóleo despencou de US$ 115 para US$ 63. Diz um amigo meu que até novembro ele estará abaixo dos US$ 50.

O que isso significa?

Lei da oferta e procura. As indústrias estão parando de produzir. E sem produção, olho da rua. E sem empregos, nada de salários. Ninguém compra ninguém vende. Ninguém trabalha.

Essa teoria do "sem produto sem emprego sem salário sem consumo" não é nova. Ela apenas estava prevista lá pro ano de 2150, quando nenhum de nós estaria aqui pra assistir.

Belê, pensávamos todos. Fócsi!

Mas cá estamos, juntos de mãos dadas, assistindo do camarote vip desse transatlântico-pacífico-índico-negro-báltico-vermelho-mediterrâneo e furado.

Como dizia nos anos 80 o gênio da pseudo-economia mundial e papa da arte underground paulistana, John Howard...

DEUSECOME-SE

Com o barril nesse patamar, a Urssia vai ter de apertar o cinto. Mas e o lucro da venda de armas?

A venezuela, fudida, vai enfim obedecer ao "cala-te" do príncipe das astúrias.

O Irã, quebrado, ainda vai tentar sua bomba de fins pacíficos. Até ouvir um bum e não ouvir mais nada.

Os Unidos Venceremos da América vão continuar no Castelo da Cinderela. Que em breve será da Ariel.

E o Brasil? Aqui é cultural. Mesmo sem um puto mas torrando no cartão. Até gastar a tarja.

Quer saber? Tô achando mesmo é que essa crise veio para nos salvar. A crise é o mashiach*.


*mashiach - messias

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

DO SIDNEY MAGAL À LEYA BRANDER

Logo após o porre no casamento dos meus primos Dany e Vivi, com direito à banda do peixe, pocket-show do Sidney Magal e o cacete... fomos ainda bêbados, a Fê e eu, os primeiros a entrar na Bienal das Artes de São Paulo.

A gente adora a bienal. Arte nova, do lado de casa, de graça... e bêbados então!

PRIMEIRO ANDAR:
alguns daqueles filmes incríveis ou nada incríveis. Pra mim tudo é referência e eu adoraria ficar ali sentado, assistindo. Mas fica uma sensação de que há uma bienal inteira pela frente e não somente os filmes. E sendo assim, só demos uma passada e seguimos em frente.

dica: Marina Abramovic e seu parceiro Ulay numa frequência de choque contra dois pilares. Um trabalho performático feito na década de 60, angustiante, exaustivo, mas que não dá para arredar o pé enquanto não acaba.


Tem também um video de uma banda tosca de gente chapada tocando um som meio sex pistols para um público tosco, escasso e chapado. Bem divertido. Só não entendo como esse foi selecionado para a bienal. Recomendo os dois pra começar a caminhada.




Na sequência, o chaveiro talisman, onde um sujeito faz uma cópia de uma chave sua e em troca, te dá uma chave que abre a bienal em horários alternativos, deixando claro que se trata de uma relação de confiança e que ESSA CONFIANÇA É BEM RESTRITA, com acesso somente ao primeiro andar. A chave é linda e eu fiz a minha. Adorei a idéia. Portanto, não esqueça de levar uma chave no bolso. Chave de carro não vale.

Num extremo do andar, uma prensa gráfica vai soltando a "Enciclopédia do Mundo Explicado" - um conjunto de páginas soltas e sem ordem determinada, com textos sobre assuntos aleatórios e, pelos poucos que li, sensacionais.

Curiosidade do primeiro andar:
Na lateral existe uma loja de livros de arte e afins, e como quase toda loja, essa também tem uma vitrine. Imensa. E nessa vitrine colocaram um livro em destaque, cuja capa... um close de uma cuequinha branca num sujeito de pernocas magricelas, mas dono de um wurszt também imenso. Parece uma enguia. Consequência: havia sempre um bololô de gente pra babar no linguiçâmes. A maioria mulheres. Em grande parte feias e velhas. Mas também tinha as gatinhas e os emos, que não conseguiam fechar a boca diante da calabresa. Surpresa? Susto? Comédia? Desejo? Sei lá. Só sei que aquela capa chama mais atenção que muita obra exposta. A foto é até bacana. Mas seu público é, definitivamente, o mais bizarro.

SEGUNDO ANDAR:
Essa história da Bienal do Vazio... pra quem nunca se deu o trabalho de reparar na beleza daquela arquitetura, vale o passeio por essa laje.

(acabo de saber que a turma de marias-pixadeiras do já quase famoso Augustaitiz - ou seja, a trupezinha suja que marcou a ECA-USP e a Choque Cultural com seus rabiscos - após a nossa saída pixou também esse segundo andar. Eu, que também sou grafiteiro, entendo a vontade que dá na galera underground de deixar sua marca e trabalho naquelas paredes incrivelmente brancas, no meio de tanta arte estranha, mesmo sem ser convidado. Até porque qualquer tosqueira ali pode provocar uma revolução na carreira artistica de qualquer um. Mas "pixo" não tem a menor chance. Se os caras escrevessem algo bacana, aposto que daria certo. Mas escrever nome de gangue... tá com nada.)

Aí aquele Bertazzo, coreógrafo e professor de auto-conhecimento corporal, estava lá gravando para o fantástico, e nos convidou para participar da aula. E lá fui eu e a Fê brincar de marchar pelo andar, cantando êôuê, êôuê... e puxando elásticos enrolados nas pilastras em posição de arco e flecha. E aprendendo a encaixar a bacia. E a usar os dedões dos pés para melhorar a postura. Muito legal, o cara é ótimo, divertido, gente boníssima. Aí fiquei sabendo que, no meio da gravação, o câmera paquerou minha mulher. Mas ela é linda mesmo, então, não insistindo nem passando bilhetinho com telefone, ok, pode admirar. Porque ela é maravilhosa. E querida. Talvez por isso tantos a-odeiam. E odeiam meeeeeesmo! Porque ela é uma pintura. Uma escultura. Uma poesia. Uma obra de arte viva. Uma gata. Uma delícia. E além disso tudo, uma mulher que escolheu ao invés de ser escolhida. Nesse caso, o escolhido fui eu... slup!

TERCEIRO ANDAR
Começo falando do tobogã... outra delícia. Divertidíssimo descer 3 andares assim, em curvas transparentes em pleno Ibira. A Fê desceu gritando meu nome e eu adorei.

Ao lado do tobogã, uma parede com fotos de retratos clássicos pintados pelo Da Vinci, Renoir, Lautrec, Picasso, Gogh, todos eles. Só que as fotos dos retratos - de personagens e situações estranhíssimos - incluem também as molduras e isso forma um conjunto bastante interessante. Enfim, não acho taaaaanto assim que seja arte, mas é bonito. Pra mim parece mais uma coisa de arquitetura de interiores.

Tem também uma parede inteira de quadros brancos com frases repetidas feitas com palavras recortadas de papéis escritos com máquina de escrever. Tudo em francês, frases incríveis... mas a opinião é a mesma: lindo, glamouroso, mas está mais para decorador e menos para artista.

O meio do andar é tomado por centenas de quadrinhos com imagens bem bestas. O tipo da coisa que dá a má fama à bienal. Não pagaria um centavo naquilo. Mas é apenas a opinião desse ignorantão aqui. De repente aquilo é o must e eu não tenho a capacidade...

Em compensação, logo ao lado, uma video instalação incrível. São várias tvs alinhadas e todas mostrando o rosto de uma mesma artista em close, em momentos diferentes de sua carreira. Em uma tv ela aparece devorando uma cebola crua, na outra, penteando-se como uma louca, depois fazendo carinha sexy, depois lavando uma caveira com um escovão, depois descansando abraçada a um esqueleto... depois sendo quase esmagada por cobras malucas, depois deitada na praia... depois e depois... trabalho insano e incrível. E quem é a doida? Outra vez, Marina Abramovic. Sensacional.

"art must be beautiful, artist must be beautiful". Não perca também o "The Onion".




Mas a melhor série de todas, de uma pessoa que eu jamais havia sido apresentado e agora não sei como vivi sem até hoje, uma artista chamada Leya Mira Brander. São desenhos absurdos - corações, músculos, rostos, pessoas, peixes - adornados por frases incríveis... não sei explicar. Emoção pura. Gravuras pouco maiores que um guardanapo, mas de uma profundidade abissal. E ainda assim, iluminadas. Eu ficaria horas lendo, observando, admirando, invejando o talento, desejando ter um daqueles na minha casa. E mesmo que valesse milhões e eu estivesse pobre de tudo, não abriria mão. Morreria abraçado àquilo.



"aprendi a desenhar pra poder morar contigo" - Leya Mira Brander/2005 (obs- essa instalação ñ está na bienal)

Depois disso, aí sim, sentimos o cansaço. Minha cabeça e minhas pernas já não aguentavam mais. A Fê se arrastando ao meu lado. Lembrei que estávamos no pós-breaca, que a zonazul tinha vencido, que poucas horas antes eu dava vexame com meu copo de uisq, dançando com ela santa rosa madalena, ava naguila e blues brothers até as tantas... e que ainda tinha de votar em branco, pegar a filhota na casa da sogra, ir ao clube, copiar alguns dvds antes de devolver na locadora, quem sabe nos ver no fantástico...

...não, isso não. Deixa pros outros.


Só sei que ainda não sei como jamais havia ouvido falar na Leya Brander.

Pergunta 1:
quando é que os curadores vão lembrar desse outro gênio brasileiro chamado Luiz Sôlha?

Pergunta 2: quem foi que fez aqueles banquinhos meio Escher espalhados por toda bienal ? Se vendesse na lojinha do Mam, ou então na do livro da cueca assalamada...